Pe. Henri-Antoine Grouès, durante a Segunda Guerra Mundial, dedicou-se a ajudar pessoas perseguidas pelos nazistas, tendo se incorporado à Resistência Francesa em Vercors. Conservou o nome clandestino, Pierre – o Abbé Pierre.
Em 1945, foi eleito deputado por Nancy. Quando procurava alojamento em Paris, veio-lhe a idéia de alugar uma propriedade abandonada no subúrbio, Neuilly-Plaisance. Um amigo da “Missão de Paris” falou-lhe que algumas famílias gostariam de ir passar os fins de semana ali.
Após as tragédias da guerra, sobreveio a crise de habitação. Bem depressa, duas famílias foram viver na residência alugada por Abbé Pierre. Mas, como batizar este lugar com vocação de acolhimento? “Vamos chamar-lhe ‘Lar de Emaús’, como a aldeia do Evangelho, onde uma estalagem permitiu aos discípulos desanimados recuperarem suas forças,” disse Abbé Pierre. O deputado nem acreditava que sua casa poderia a vir ser um local de alento aos desesperados, uma casa de ressurreição.
No verão de 1949, voltando de Estocolmo, Suécia, onde participara de uma reunião do movimento federalista, Abbé Pierre foi chamado com urgência à cabeceira de um vizinho, Georges, um prisioneiro que acabara de sair da prisão da Ilha do Diabo, após vinte anos de reclusão.
Desgraçadamente, o pobre homem veio encontrar uma situação familiar lamentável: não só o seu lugar, junto da esposa, tinha sido ocupado como também uma criança, que não lhe pertencia, usava seu nome. Esmagado já outrora por uma injustiça, tentou suicídio.
E aqui temos Abbé Pierre na cabeceira de Georges. Podia propor-lhe ajuda generosa. Um deputado, presidente de partido como era, poderia oferecer favores. Pois bem, ele não fez isso. Teve uma inspiração espantosa e disse-lhe: “Georges, queres vir ajudar-me? Estás livre, visto que querias deixar o mundo. Eu também me debato com dificuldades. Vem ajudar-me a ajudar os outros. Sozinho, não consigo. Vamos adaptar a velha casa para podermos acolher muitos irmãos destroçados como tu. Vamos fazê-lo juntos, para os outros”.
Está aí toda a idéia-mestra do Movimento Emaús. Não se erguem os esmagados pela vida propondo-lhes piedade, mas reconhecendo que se tem necessidade deles, acreditando neles.
Nessa noite do verão de 1949, tornaram-se companheiros: os primeiros companheiros do acolhimento em Emaús.